Auatrália 100km
General | 26.05.2014 | 1 Comentarios

AUSTRÁLIA 100KM: escadarias verticais de ferro para “pagar pecado e ir diretamente ao céu: linha de chegada”!

As pernas dizem basta, já deu, não tem de onde tirar forças para avançar quilômetros! Meu útero estava deslocado por conta do acúmulo de quilômetros e por isto meus joelhos também doiam (segundo os osteopatas)! Meus olhos fechavam. Cansaço, poucas horas de sono e muitas de horas de vôo: USA, Europa, Japão, Europa, Austrália! E a cabeça dizia que sim, “você pode e que tem que seguir”!

As pistas off road são eternas, correr pela areia e sobre as pedras pequenas pontudas me doem a planta dos pés. O vento que refresca minha cara, me empurra para trás. Me sento ao meio da montanha para refletir. Paro, respiro, como mais uma barrinha energética de banana. Respiro, me levanto e sigo. Não me vejo com forças como em outras provas, me vejo como em meus primeiros treinos emc casa depois de Mont Fuji, minha passada é curta, sem flexibilidade, sem poder de impulção... Sigo, corro um pouco, caminho um pouco, que tristeza...não tenho forças para subir correndo nem esta colina. Sigo, mas porque sigo? Tem sentido, se não estou 100%? As escadarias de ferro dizem que não, não siga. Sento novamente, corredores me perguntam se estou bem, digo que sim. “Sim, são apenas as pernas que não seguem mais meus comandos”. Como mais, bebo mais. Me levanto e sigo, ao final estou ali para correr. Foram mais de 25 horas de vôo, perdi noites de sono, dois dias de trabalho para chegar até ali, mil horas de concentração e preparação. Toda a energia que me enviam meus seguidores, família e amigos. Quero me deixar sentir isto. Daria tudo para completar a Austrália 100km, para viver esta experiência e sabia que teria 26 horas (limite de horas dada pela organização) para cruzar a linha de chegada.

Estava em segundo lugar atrás de Nuría Picas, me passa a americana corredora da Montrail Joelle Vaught, tento seguir seus passos, impossível. Começo a bufar, mantenho meu ritmo devagar porém constante, sem pensar. Falo comigo mesma, “Não pense, corra, abra seus olhos, veja estas lindas samambaias decorando estas cachoeiras de água cristalina”. Paro, lavo minha cara e sigo saltando pedras e escalando rochas para cima de um longo caminho que corta um vale selvagem.

Chego em mais um tramo de escadarias, olho para cima e não vejo o fim. São escadas verticais construídas de ferro. São inúmeras, passamos horas subindo ou descendo escadas. Para cruzar as grandes paredes rochosas (chapadas) não há trilhas, são escadarias (via ferrata). Me passam mais duas corredoras, uma canadense e uma australiana, esta que é triatleta campeã e que já completou mais de 15 Iron Mans. Tento seguí-las, “no way”. Agora estava em quinto lugar e não tinha forças para lutar. Neste momento de dor, de tanta dor nos quadríceps, panturrilha, pé, costas, cintura...lembrei do meu avô Lourival lutador de jiu jitsu, que antes de morrer, com dificuldade para falar, deitado e coberto de aparelhos num quarto de hospital, me dizia : “Nanda, você tem que ser ainda mais guerreira!”. Estas foram suas últimas palavras para mim, quando eu tinha meus 20 anos. Pois sem nada na cabeça, me veio esta sua frase e presença. Respirei e segui. Perdi de vista as duas corredoras, mas segui, “comendo quilômetros” e deixando para trás 46 km de prova.

Chego no check point 4, esgotada, sento e digo a Stephen e Lisa, me ajudem por favor, tenho que chegar até o fim. Stephen me diz: “Fer, você vai super bem, está apenas 4 minutos atrás das duas corredoras que acabam de passar por aqui”. Explico a Stephen que para mim não importa as outras corredoras, o meu objetivo é chegar e concentrar em mim mesma, na minha corrida e experiência. Ele concorda e diz: “Ok, agora são 22km bem duros com técnica e descida pelas escadarias, provavelmente você fará em 3h”. Dou entrevista para a TV Australiana, digo que estou sem equilíbrio entre a parte física e mental. A física diz para parar, mas a mental diz que não porque não há motivo para parar. Me levanto da cadeira com dificuldade, pego a viseira, pois o sol já queimava e sigo com a mochila bem pesada carregando os 2 litros de água e uma lista enorme de material aobrigatório. O importante era apenas correr e deixar minha cabeça vazia de ego, pressão, pensamentos que não fossem positivos.

As vistas são incríveis, nunca estive na Chapada Diamantina no Brasil, mas pelas fotos que já vi, se assemelham muito as chapadas das Blue Mountains. Corro por trilhas pequenas, single tracks e vejo ao meu lado direito toda a imensidão deste vale. Nunca imaginei que estas montanhas fossem assim vistas de tão alto. Um mix de cores, verde-vivo presente na floresta, vermelho-laranja nas rochas verticais e azul escuro forte estampado no céu.

Sigo e vejo a triatleta na minha frente, porém não posso seguir, não tenho mais água. Sigo correndo sem forçar o ritmo e passo pelo meio de um condomínio com mansões. Acho uma torneira com água depois de 4 tentativas. Completo uma das garrafinhas de 500ml e sigo correndo. Tudo de bom, água fresca e gelada! Sigo animada, neste momento faltavam uns 5 quilômetros até o check point 5, o último check point antes da chegada.

Passo a triatleta, pergunto se ela está bem e se ela corre Iron Mans, ela diz que sim e que achou bonita minha tattoo. Ela se coloca ao meu lado, corremos juntas por uns dois quilômetros, mas ela não me deixa ir, segue meus passos, e mais uma vez me ultrapassa, era um tramo plano pelo meio de estradas de areia fofa. Chega o tramo de asfalto, que dor de quadríceps, mas me sinto mais animada, passo novamente a triatleta e sigo. No fim da estrada vejo a canadense, que bom, estava recuperando minhas forças? Chego ao Check Point 5 em terceira posição, segundos na frente das duas corredoras.

Me sento e me cuido tranquilamente, Stephen e Lisa massageam minhas pernas, me colocam gelo para refrescar, como minha batata doce com abacate e um pouco de Alimento 640 (preparado de carbo). As duas deixam a zona e começam a correr antes que eu. Agora eram 18km, porém com uma subida ao meio de mais de 700 metros positivos, uma longa descida cruzando dois rios e 3 km de subida pelas escadarias verticais de ferro para “pagar pecado e ir diretamente ao céu: linha de chegada”!

Passo a triatleta e a canadense num ritmo bem forte (melhor do que eu tinha antes), era uma descida por pista cheia de pedrinhas pequenas e escorregadias. Sigo e sigo com toda minha força, não quero que elas me vejam mais. Coloco os fones no ouvido e escolho uma canção que me faz bem para subir correndo toda a montanha de 700m de ascenção. Faço força para abstrair a dor e tento deixar a cabeça vazia. Aparece a placa de 85km. “Pão comido” (como dizem na Espanha).

Agora era correr o máximo, até a perna arrebentar, porém sem desmaiar. O sol vai embora e a noite chega, faltam 5km pelo meio de um bosque encantado com barulho de cachoeira. Macacos gritam, ops não eram macacos, eram pássaros enormes como um pavão gigante. E eles gritavam ou cantavam. Aparece uma luz por detrás de mim, um corredor com ritmo forte, olho e pergunto quem é...seria uma das corredoras? Ufffa, não, era um corredor australiano. Pergunto se ele sabia quanto tempo atrás de mim estava a corredora canadense. Ele diz de 5 a 10 minutos. Pronto. Dei tudo. Não queria deixar de lutar. “Sangue nos olhos” (como dizem no Brasil). Os últimos 3 km de escadaria em direção ao céu, foram de pura adrenalina e força mental.

Com 11h46 min consegui cruzar a chegada da Austrália 100km.

Apenas 2 minutos de diferença da americana Joelle Vaught e 48 minutos atrás da minha amiga Nuría Picas que bateu o recorde da prova, sendo que a prova deste ano apesar de ter a mesma quilometragem era mais técnica e com mais desnível pesado. “Felicitats Nuría”.

Parabéns a todas estas incríveis corredoras e pessoas, à organização. Obrigada a todos vocês que me seguem e me inspiram, é isto que faz um esporte ser bonito e trazer positividade.


Comentarios
08.02.2017 | John
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